quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

videoAs pessoas compravam o guarda-chuva/ E estavam seguras quando ela se anunciava/ O vento sempre avisava à velha, quando dava vida à roupa estendida/ E todos fechavam as janelas, corriam para os bondes e para as casas./ E assim caia: plic, plic, plic.../ Com a intenção pequena de poças/ E os inocentes achavam que ela vinha para refrescar/ Mas na verdade ela queria pensar grande/ E chuá, chuá , chuá/ Remam os homens até ela baixar/
Filme: Regen Direção: Joris Ivens Trilha sonora: Hanns Eisler Alemanha, 1929.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Passadeira

Gosto do tempo que passa/ Quando ele passante despercebido/ E nele jogo conversa fora/ E nele me embebedo e espirro/ Gosto do tempo que passa/ E nem sei se ele passa/ Ou a gente que passa/ Passando roupa/ Passando bem ou mal/ Passando para outra vida/ Passando e sentindo o passado/ Passando de estado/ Passando o dinheiro/ Gosto do tempo que tenho/ Para deixá-lo passear/ Enquanto só quero aproveitá-lo/ Como um passe de bênção/ Como um passe de mágica/ Como um passe bem/ Como uma passarela/ Como uma passadeira/ Que só passa pros filhos/

água

Se houvesse dor ou saudade/ Vinha o choro que curava e falava vontade/ Chorei por horas/ Limpava as expressões / Nostalgia não deixa a criança em paz/ Queria ser ela para arrebatar minha tristeza/ E fazê-la porque o tempo que passa/ Aumenta a distancia entre nós/

Sobre a autora por Francimária Bergamo

A SILVESTRE POETISA:
Aqui estou desprovida de qualquer vínculo para te dizer que os poemas são encantadores e tocantes por várias razões...vou tentar falar algumas. Sobre o título: Poética silvestre ou mesmo silvestre poética, a inversão ficou perfeita. É a poesia que nasceu meio sem cultivo no meio da selva, mas está lá firme e forte e se espalhando entre a relva, brotando... Também os títulos dos poemas são lindos. São fortes e criativos e dialogam muito bem com o restante do texto. Intertextualidade: E um quesito à parte...Rafaela usa de forma brilhante e está totalmente inserida na sua escrita...não é uma retomada de algo que ela leu ou ouviu e quer usar só pra mostrar conhecimento...ela é explícita e só enriquece o seu texto. Além dessas marcas explícitas no texto, também estão ali todas as suas leituras e elas aparecem de forma não dita textualmente, mas sinto a presença de muitos poetas que ela deve ter lido ou não, mas que se remete a eles de forma consciente ou não...é o inconsciente coletivo...Sim, quando ela fala do grilo, da joaninha, da menina literária, falando sobre o azul me fazem lembrar Manuel Bandeira...é, ele também gostava de usar uma coisa assim prosaica até lúdicas na poesia pra nos dizer coisas muito profundas...mas isso o Drummond também fazia...Ah o cotidiano...também estão lá traços da Clarice, do Caio, da Hilda Hilst...mas entenda, Rafaela não está imitando-os...ela está conectada com a espiritualidade da poesia...e ainda tem Gullar, Adélia, Ana Cristina Cesar, Platão...é um passeio delicioso... As imagens: Rafa cria um mundo de imagens na sua poesia...e isso só enriquece o texto e o leitor só tem a ganhar porque vai devastando os meandros do texto e se enriquecendo de belas imagens que o texto evoca, isso se consegue graças à tessitura do texto, mas não é uma tessitura pra garantir a coesão e coerência somente, é uma tessitura estética, digamos assim, que vai além dos mecanismos de construção de um bom texto, que são importantes, mas não são eles que vão garantir a estética do texto, é o trabalho artesanal com a linguagem que provoca isso e nos faz acreditar que estamos diante de um texto artístico e não informativo, opinativo e como conseguir isso? Isso é para poucos e Rafaela é capaz dessa façanha. Não basta ter um vocabulário rico, de fato é necessário saber manipular a palavra, que não é nada fácil, como já dizia Drummond - "a luta com as palavras é a luta mais vã...". Linguagem: Como falei, as imagens são um ponto forte na silvestre poética e elas estão intrinsecamente ligadas à linguagem utilizada pela poetisa, a escolha vocabular está primorosa (claro que ela irá aperfeiçoar muito ainda com a prática e com as leituras que ainda fará). Seu vocabulário é rico e sua sintaxe é primorosa, Rafa brinca com a linguagem e adapta a linguagem a cada poema. Metalinguagem: Ainda tem a metalinguagem que ela faz da poesia e que exige muita maturidade do escritor, Rafaela ou o seu eu lírico está sempre discutindo a sua própria poesia – “por isso meu poema é uma desgraça” ou “o poema é tido como nunca”- e isso é muito forte e é a essência do teu texto. Tema: É difícil falar em tema, mas seus temas são as suas (as nossas também) inquietudes, seus desejos...e posso dizer que a silvestre poesia é seu tema ...ela está ali sendo questionada e reverenciada, Rafaela tem fome de poesia... Sua poesia não é uma poesia, digamos, fácil porque as coisas não estão dadas, não estão tão evidentes ao leitor, ele precisa se esforçar e só assim ele é sugado por ela e adere totalmente à poesia que ali vai surgindo. E por ser assim é que posso dizer que sua poesia se sustenta e surpreende principalmente o final de cada poema - é surpreendente- e muitas vezes quebra com a expectativa do leitor. Isso é muito interessante e a Rafa tem esse estilo, que me agrada. Adorei ler seus escritos e conhecer um pouco do seu eu lírico, fiquei surpresa com tantos textos, não sabia que a Rafa tinha uma produção tão grande...fiquei pensando: 'meu deus, dentro daquela menininha estava escondida tanta poesia assim, como pode?'Ela é de fato uma menina-literária que tem uma bolsa amarela cheia de poesia e que está na hora de abrir essa bolsa e libertar todos os poemas, assim como as joaninhas...
Francimária Bergamo trabalha no Ministério da cultura e é formada em Letras pela UNESP.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Cata-vento

Se eu não te amo agora/ Não há dores e nem rancores/ Então não há também poesia/ Mas não porque tem de haver o sofrer/ Mas porque minha estrutura intacta/ Não balança quando o vento passa/