poemas da rafa
Silvestre poética
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Passadeira
Gosto do tempo que passa/
Quando ele passante despercebido/
E nele jogo conversa fora/
E nele me embebedo e espirro/
Gosto do tempo que passa/
E nem sei se ele passa/
Ou a gente que passa/
Passando roupa/
Passando bem ou mal/
Passando para outra vida/
Passando e sentindo o passado/
Passando de estado/
Passando o dinheiro/
Gosto do tempo que tenho/
Para deixá-lo passear/
Enquanto só quero aproveitá-lo/
Como um passe de bênção/
Como um passe de mágica/
Como um passe bem/
Como uma passarela/
Como uma passadeira/
Que só passa pros filhos/
água
Sobre a autora por Francimária Bergamo
A SILVESTRE POETISA:
Aqui estou desprovida de qualquer vínculo para te dizer que os poemas são encantadores e tocantes por várias razões...vou tentar falar algumas.
Sobre o título: Poética silvestre ou mesmo silvestre poética, a inversão ficou perfeita. É a poesia que nasceu meio sem cultivo no meio da selva, mas está lá firme e forte e se espalhando entre a relva, brotando... Também os títulos dos poemas são lindos. São fortes e criativos e dialogam muito bem com o restante do texto.
Intertextualidade: E um quesito à parte...Rafaela usa de forma brilhante e está totalmente inserida na sua escrita...não é uma retomada de algo que ela leu ou ouviu e quer usar só pra mostrar conhecimento...ela é explícita e só enriquece o seu texto. Além dessas marcas explícitas no texto, também estão ali todas as suas leituras e elas aparecem de forma não dita textualmente, mas sinto a presença de muitos poetas que ela deve ter lido ou não, mas que se remete a eles de forma consciente ou não...é o inconsciente coletivo...Sim, quando ela fala do grilo, da joaninha, da menina literária, falando sobre o azul me fazem lembrar Manuel Bandeira...é, ele também gostava de usar uma coisa assim prosaica até lúdicas na poesia pra nos dizer coisas muito profundas...mas isso o Drummond também fazia...Ah o cotidiano...também estão lá traços da Clarice, do Caio, da Hilda Hilst...mas entenda, Rafaela não está imitando-os...ela está conectada com a espiritualidade da poesia...e ainda tem Gullar, Adélia, Ana Cristina Cesar, Platão...é um passeio delicioso...
As imagens: Rafa cria um mundo de imagens na sua poesia...e isso só enriquece o texto e o leitor só tem a ganhar porque vai devastando os meandros do texto e se enriquecendo de belas imagens que o texto evoca, isso se consegue graças à tessitura do texto, mas não é uma tessitura pra garantir a coesão e coerência somente, é uma tessitura estética, digamos assim, que vai além dos mecanismos de construção de um bom texto, que são importantes, mas não são eles que vão garantir a estética do texto, é o trabalho artesanal com a linguagem que provoca isso e nos faz acreditar que estamos diante de um texto artístico e não informativo, opinativo e como conseguir isso? Isso é para poucos e Rafaela é capaz dessa façanha. Não basta ter um vocabulário rico, de fato é necessário saber manipular a palavra, que não é nada fácil, como já dizia Drummond - "a luta com as palavras é a luta mais vã...".
Linguagem: Como falei, as imagens são um ponto forte na silvestre poética e elas estão intrinsecamente ligadas à linguagem utilizada pela poetisa, a escolha vocabular está primorosa (claro que ela irá aperfeiçoar muito ainda com a prática e com as leituras que ainda fará). Seu vocabulário é rico e sua sintaxe é primorosa, Rafa brinca com a linguagem e adapta a linguagem a cada poema.
Metalinguagem: Ainda tem a metalinguagem que ela faz da poesia e que exige muita maturidade do escritor, Rafaela ou o seu eu lírico está sempre discutindo a sua própria poesia – “por isso meu poema é uma desgraça” ou “o poema é tido como nunca”- e isso é muito forte e é a essência do teu texto.
Tema: É difícil falar em tema, mas seus temas são as suas (as nossas também) inquietudes, seus desejos...e posso dizer que a silvestre poesia é seu tema ...ela está ali sendo questionada e reverenciada, Rafaela tem fome de poesia... Sua poesia não é uma poesia, digamos, fácil porque as coisas não estão dadas, não estão tão evidentes ao leitor, ele precisa se esforçar e só assim ele é sugado por ela e adere totalmente à poesia que ali vai surgindo. E por ser assim é que posso dizer que sua poesia se sustenta e surpreende principalmente o final de cada poema - é surpreendente- e muitas vezes quebra com a expectativa do leitor. Isso é muito interessante e a Rafa tem esse estilo, que me agrada.
Adorei ler seus escritos e conhecer um pouco do seu eu lírico, fiquei surpresa com tantos textos, não sabia que a Rafa tinha uma produção tão grande...fiquei pensando: 'meu deus, dentro daquela menininha estava escondida tanta poesia assim, como pode?'Ela é de fato uma menina-literária que tem uma bolsa amarela cheia de poesia e que está na hora de abrir essa bolsa e libertar todos os poemas, assim como as joaninhas...
Francimária Bergamo trabalha no Ministério da cultura e é formada em Letras pela UNESP.
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012
Cata-vento
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